A invisibilidade do trabalhador braçal e o roubo ao museu do Louvre

Por: Alex Godoi

A menor das catástrofes que se pode acontecer quando deixamos alguém essencial passar despercebido

Capítulo I – O roubo Milionário


Em outubro, o roubo ao Museu do Louvre chocou o mundo pelo aparente feito “impossível” ter sido realizado com tanta facilidade. Os quatro ladrões — agora já identificados — invadiram o museu em plena luz do dia, com o prédio aberto e cheio de visitantes. Usando esmerilhadeiras, cortaram os vidros das janelas e das vitrines que continham joias e, em menos de oito minutos, levaram nove peças que pertenceram à realeza francesa durante o século XIX, avaliadas em mais de 80 milhões de euros.

O roubo em si durou aproximadamente 3 minutos e 57 segundos, e a guarda do museu só percebeu o ocorrido cerca de cinco minutos depois, quando os criminosos e as joias já estavam fora do prédio. Após saírem pela janela cortada, a rota de fuga utilizada foi a Rodovia A6 — novamente, um local extremamente movimentado e a principal via de saída de Paris.

A quadrilha usava roupas típicas de operários de manutenção: coturnos pesados, blusas pretas de manga longa e o inconfundível colete de alta visibilidade. Isso facilitou ainda mais a fuga, já que, para deixar o museu, posicionaram um caminhão com uma escada acoplada abaixo de uma das janelas na Galeria Apolo, onde as joias estavam expostas, atitude que passou despercebida por visitantes e seguranças.

Capítulo II – Como se tornar invisível


Para além das falhas de segurança do museu — como a falta de mais câmeras e o fato de que os vidros das cabines e da galeria não eram blindados —, o roubo trouxe à tona o quanto trabalhadores braçais podem passar despercebidos mesmo em locais lotados.

Em nenhum momento levantaram suspeitas sobre porque operários de manutenção carregavam sacos e esmerilhadeiras para dentro de uma área sem obras, ou porque um caminhão com escada estava “abandonado” convenientemente próximo a uma janela do segundo andar.

Esse fato se torna ainda mais absurdo quando lembramos que o museu já passou por situações semelhantes, como o furto da Mona Lisa em 1911 e os roubos nunca solucionados, entre 1980 e 1990, de artefatos encontrados na Pirâmide de Pei. Todos esses casos envolveram trabalhadores ou funcionários que passaram despercebidos por dezenas de olhos.

Aproximando esse questionamento da nossa realidade, desde a última reforma trabalhista o trabalho braçal no Brasil passou a ser visto como subemprego, por serem funções nas quais muitas vezes não há expectativa de crescimento profissional ou pessoal. Normalmente, quem as executa são pessoas de classe média / baixa, com escolaridade limitada — muitas vezes até o ensino médio ou menos — e, com frequência, migrantes de outros estados.

De acordo com o psicólogo Jean Carlos, a invisibilidade pública é um fenômeno psicossocial caracterizado pelo “desaparecimento” de uma pessoa em meio às outras, devido a fatores como sua ocupação, condição financeira ou preconceitos sociais.

Esse fenômeno é facilmente observado em trabalhadores como caixas, frentistas, diaristas e outros profissionais de baixa qualificação. Suas ações, embora essenciais, são consideradas pouco importantes e, por isso, passam despercebidas — mesmo quando podem estar envolvidos (conscientemente ou não) em situações extraordinárias, como no caso de um roubo milionário.

O caso do Louvre é uma versão escancarada desse fenômeno, mas ele também aparece em menor escala nos grandes centros urbanos, como nos inúmeros casos de garis atropelados enquanto trabalham, em que muitos motoristas fogem sem prestar socorro.

Com o tempo, as pessoas passam a enxergar o outro apenas por sua função, muitas vezes de forma não intencional. Isso desencadeia uma série de problemas para quem ocupa esses subempregos, principalmente sentimentos de desprezo, humilhação, falta de propósito e a sensação de estar preso a uma função sem chances reais de melhora.

Capítulo III – Conclusão


 Em prol de preservarmos nossa própria rotina, cria-se um hábito social de fazer vista grossa às pessoas ao nosso redor. Esse comportamento não é ensinado: é adquirido conforme somos inseridos na sociedade enquanto trabalhadores. Assim, reforça-se a invisibilidade daquelas cujas ocupações não despertam interesse, admiração ou status — mas que, paradoxalmente, sustentam boa parte do funcionamento do cotidiano urbano.

Enquanto trabalhador, proponha a si mesmo o desafio de enxergar o próximo, não como outro trabalhador mas simplesmente reconhecer o seu valor e sua existência para além de sua função e de seu uniforme.

Referências


Esse texto foi montado a partir de uma série de pesquisas e outros textos jornalísticos, segue as minhas principais fontes na hora de escrever:

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