Da exclusão à universidade: A ascensão acadêmica de pessoas trans no Brasil

Por: Alex de Godoi

A presença trans nas universidades não é apenas uma estatística, mas uma mudança histórica na disputa por cidadania e direito à existência.


“Durante a pandemia, coloquei meu nome social na mesa e as pessoas estavam me respeitando. Quando eu retornei à escola, as pessoas todas eram de outra bolha, eram as pessoas que conheciam o Ethan que não tinha transicionado, o Ethan que não tinha aquela aparência. Quando eu cheguei lá a transfobia foi muito mais escancarada do que nos outros anos, por eu ter me assumido, as pessoas, parecem que elas ficavam mais à vontade de não se importarem com a situação”

O relato pertence a Ethan Ostertag, uma pessoa trans não binária de 21 anos que, por conta das situações de transfobia vividas durante o ensino médio, optou por abandonar a escola como modo de se proteger dos ataques vindos de outros alunos.

A experiência de Ethan não é um caso isolado. Para muitas pessoas trans, a escola, um espaço que deveria representar acolhimento, aprendizagem e desenvolvimento, acaba se transformando em um ambiente marcado por constrangimentos, exclusão e violência cotidiana. Entre dificuldades relacionadas ao uso do nome social, episódios de discriminação e a falta de preparo institucional para lidar com questões de identidade de gênero, trajetórias escolares são frequentemente atravessadas por obstáculos que ultrapassam os muros da sala de aula.

Em uma pesquisa da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (AGBLT) sobre o ambiente educacional, constatou que 60% dos estudantes LGBT’s brasileiros se sentem inseguros na escola em decorrência de sua sexualidade, 27% já foram agredidos fisicamente e 73% verbalmente. Com os alunos trans a realidade é ainda mais complicada, e dados da Rede Trans Brasil estimam que 82% das pessoas trans abandonaram a escola pelo menos uma vez ao longo da vida por conta dessa insegurança.

As consequências desse tipo de vulnerabilidade passaram a aparecer aos poucos para Ethan. “Eu comecei a faltar horrores porque já estava cansado, me sentindo sufocado”, conta. Mais tarde, o afastamento emocional da escola se transformaria em evasão.



Essa exclusão acadêmica sofrida pelas pessoas trans no Brasil tem raízes históricas. Desde a época das colonizações temos registros da inquisição portuguesa onde pessoas que não estavam em conformidade com as normas de gênero e sexualidade - homens e mulheres que somente se sentiam atraídos por pessoas do gênero oposto - eram julgadas pelo pecado de sodomia, um crime cuja condenação era morte ou expulsão. No entanto, as pessoas trans continuaram a existir às margens da sociedade brasileira.

No período anterior à ditadura, as pessoas trans principalmente mulheres trans e travestis, encontravam na prostituição e no teatro algumas das poucas possibilidades de sustento e expressão, já que nesses espaços os corpos tratados como diferentes eram “aceitos” e podiam se expressar mais livremente:

“Foi o caminho para muitas pessoas transicionarem, começar no palco aquilo que já era fora dos palcos. Tem até a Divina Valéria falando - ‘choquei a sociedade quando eu volto da França com peitos de verdade, toda feminina fora dos palcos’.” Afirma Lia Helena, travesti e formada em artes cênicas pela Unicamp.

Nessa época a exclusão acadêmica era ainda mais clara, já que aqueles que se assumiam muito cedo eram tratados com desdém e precisavam recorrer aos métodos alternativos de estudo e trabalho para sobreviver.

Durante a ditadura a pressão social ficou mais forte, pois o artigo de lei da vadiagem, presente do código penal de 1940, dava aos militares aparato legal para a perseguição daqueles que trabalhavam nas ruas - a prostituição da qual muitas pessoas trans tiravam seu sustento na época. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento econômico do país permitiu que os hormônios e as cirurgias de redesignação sexual se tornassem mais populares, fazendo com a comunidade LGBTQIA+ brasileira passasse a se posicionar mais fortemente pelos seus direitos e a se engajar politicamente pelo fim da ditadura.

Dos anos 90 até a virada dos anos 2000, a população trans já tinha mais reconhecimento, tendo sido criado diversos coletivos ao redor do país para que essa população pudesse se encontrar mais facilmente, como a Associação de Travestis e Liberados (ASTRAL) que mais tarde passaria a se chamar Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), e desde então faria um trabalho de contagem e suporte a pessoas trans ao redor do país.

Desde então, dados da ANTRA começaram a escancarar a diferença entre a educação de pessoas cis e trans no Brasil. De acordo com os relatórios da associação, aproximadamente 56% das pessoas trans não completaram o ensino fundamental e 72% não têm o ensino médio completo, sendo os principais motivos dessa evasão a violência física e psicológica que muitos sofrem dentro das salas de aula, como ocorreu com Ethan.



Embora séculos tenham se passado desde a perseguição aberta promovida por instituições religiosas e estatais, mecanismos sociais continuam reproduzindo essa exclusão. Patrícia, advogada de direitos humanos e mulher trans, resume essa realidade de forma dura: “Se você se esconder no tempo que está na escola, você vai ter mais vantagem. Se você exercer o seu direito, você vai ser humilhada”.

Para contornar esses números, desde 2016 medidas vêm sido tomadas pelos governos federais e estaduais como forma de conter a evasão. O decreto nº 8.727/2016 garante às pessoas trans o uso do nome social - nome escolhido pela própria pessoa para facilitar o reconhecimento da sua identidade de gênero - no contexto da administração pública federal direta, autárquica e fundacional, Patrícia, considera isso uma grande evolução que foi conquistada aos poucos:

“Mas para você mudar de nome, você não precisa mais ter a cirurgia, por exemplo. Hoje em dia é a parte burocrática [...] porque isso traz muita dignidade para a gente.”

Em 2018 esse decreto foi atualizado para que pessoas trans menores de idade possam solicitar o uso do nome social nas escolas sem a necessidade da autorização de um responsável legal ou a retificação total nos documentos, e desde 2022 o nome social pode ser adicionado no CPF através do CIN (Carteira de identidade Nacional) sem a necessidade de pagar pela inclusão.

Além das medidas de uso do nome social, em 2019 o STF (Supremo Tribunal Federal) estabeleceu que homofobia e transfobia se enquadram como discriminação na mesma lei de racismo (7.716/1989), sendo assim promovido maior respeito e tratamento correto às pessoas LGBTQIA+.

Apesar dos avanços jurídicos recentes, a distância entre a legislação e a realidade ainda permanece. Para Patrícia, o principal obstáculo continua sendo institucional: “É o preconceito institucional. A gente tem legislação para isso. Mas o que acontece na prática é que essa legislação não é respeitada”.

Essas medidas auxiliam milhares de estudantes a se manterem na rotina escolar, pois apenas o nome na chamada sendo usado corretamente nas aulas ou a garantia de que o aluno pode ir e vir pela escola sendo amparado pelas leis caso necessário, ajuda no processo de permanência para que os estudantes possam concluir seus estudos sem pensar que sua identidade de gênero será um empecilho nesse processo:

“Mas a partir do momento que eu pude colocar no sistema o meu nome na chamada as coisas facilitaram bastante. Eu não tive mais problema com o meu nome aparecendo em nenhum lugar da Unicamp”

Relata Vênus, estudante trans não binária de artes cênicas. Ela fez a inclusão do nome na universidade sem ainda tê-lo retificado nos documentos.



Todas essas mudanças têm se provado eficazes e nas redes de ensino pública cada vez mais pessoas têm se sentido confortáveis para utilizar esses recursos e assumir a própria identidade. Em 2025 a Rede Trans Brasil em conjunto com 15 estados brasileiros registrou um aumento dos estudantes das redes públicas de ensino solicitando o uso do nome social, onde mais de 9.000 alunos buscaram a secretária de suas escolas para incluir o próprio nome nos sistemas e chamadas das instituições, um aumento de pelo menos 300% em comparação á 2018 quando o decreto foi oficializado.

Há alguns anos as universidades públicas passaram a explorar a possibilidade de cotas para pessoas trans nos vestibulares, destinando parte das vagas à essa população. Atualmente, pelo menos 30 instituições ao redor do país já aplicam esse modelo em seus processos seletivos, buscando ampliar a presença de pessoas trans no ensino superior.

Até então, as cotas têm sido uma das principais ferramentas encontradas pelas organizações para estimular que a população trans brasileira conclua o ensino médio e tenha acesso às universidades. Uma pesquisa feita pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (GEMAA) revelou que pessoas trans representam apenas 0,3% dos alunos matriculados regularmente nas universidades brasileiras, evidenciando a disparidade e a necessidade desse tipo de política pública.

Na nossa região, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aprovou, em abril do ano passado, a implementação dessas cotas, sendo a primeira universidade estadual do estado de São Paulo a aprovar tal medida. A decisão foi tomada de forma unânime pelo conselho universitário após mobilizações conduzidas por estudantes e coletivos LGBTQIA+ da cidade.

Para Helena, que já era formada em artes cênicas pela Unicamp na época e agora voltou para fazer pós-graduação, as mudanças dentro das universidades já podem ser percebidas na prática. Ela acompanhou parte dessas transformações durante sua trajetória acadêmica:

“Eu estava na greve que aprovamos as cotas étnico-raciais (...) E agora que eu volto a gente já tem vestibular indígena (...) e a gente aprovou a cota trans. A gente teve a primeira leva de pessoas trans entrando (...) Então eu vejo muita diferença e vejo essa universidade um pouco mais diversa.”

Mas apesar do incentivo das cotas, a maior dificuldade dos alunos continua sendo permanecer estudando depois de entrar na universidade, pois estar nas aulas não é garantia de acolhimento. A trajetória de Ethan evidencia que a evasão nem sempre acontece por falta de interesse ou capacidade acadêmica, mas pelo desgaste contínuo provocado por experiências de exclusão.



Para Vênus, que está fazendo a graduação pela Unicamp, a permanência universitária depende de fatores que vão além da aprovação no vestibular. Auxílios institucionais e políticas de assistência estudantil determinam a continuidade ou não dos estudos: “Eu acho que, sem eles eu não conseguiria me manter. Sem o auxílio da Unicamp, eu não conseguiria começar a minha transição de gênero que eu faço hoje em dia”, afirma ao comentar programas de permanência oferecidos pela universidade.

Nesse ponto, a existência de outros alunos trans, coletivos estudantis e núcleos de apoio dentro das instituições se torna fundamental para a permanência acadêmica. A pesquisa da GEMAA citada anteriormente estima que 45% dos alunos trans participam de organizações sociais durante a universidade como forma de criar redes de apoio e engajamento político.

A própria Helena afirma que sua trajetória acadêmica não foi linear, mas que recebeu apoio dos professores e de seus colegas, e isso a incentivou a voltar a estudar mesmo após um um afastamento temporário do ambiente acadêmico:

“Eu sempre me senti acolhida de maneira geral, assim. Acho que eu só criei ruído porque logo que transicionei eu tranquei um semestre, fazia uma matéria só, na realidade. Quando eu volto, eu volto assim.”

O relato revela uma realidade recorrente entre estudantes trans: muitas vezes, a trajetória acadêmica não acontece de maneira contínua. Permanecer também envolve interromper, recomeçar e reconstruir vínculos com espaços que historicamente foram marcados por exclusões.

Apesar das mudanças recentes e do crescimento das políticas de inclusão, a presença de pessoas trans no ensino superior ainda representa um processo em construção. Mais do que garantir acesso, a discussão passa a envolver permanência, acolhimento e condições para que estudantes consigam concluir suas trajetórias acadêmicas.

Mas histórias como as de Ethan, Patrícia e Helena mostram que ocupar espaços historicamente negados também é uma forma de transformação social. Se durante séculos pessoas trans foram empurradas para as margens da educação, hoje sua presença nas escolas e universidades representa mais do que uma conquista individual: representa uma mudança coletiva.

Para Patrícia, a ascensão acadêmica não se resume apenas a ocupar uma cadeira na universidade:

“Eu poderia ser uma pessoa que poderia não ter feito faculdade nenhuma, mas se eu fosse uma pessoa letrada, que tivesse lido, sei lá, uns mil livros, acho que já seria uma boa coisa.”

A ampliação do acesso e da permanência de pessoas trans na educação brasileira tem produzido mudanças graduais dentro das instituições. Ainda que barreiras sociais, econômicas e institucionais permaneçam presentes, a ocupação desses espaços também transforma a própria universidade de acordo com Vênus:

“Eu sinto que a universidade, por ela ser essa instituição ocidental, muitas das vezes nós, pessoas trans, achamos que não é um espaço pra gente. E eu acho que é um espaço que a gente deve ocupar”

Agradecimentos e referências



Esse texto foi escrito como uma (tentativa) de reportagem literária para minha aula, e por isso devo agradecer aos meus entrevistados - Ethan, Vênus, Patrícia e Helena - pela oportunidade de conversar.

A reportagem também foi escrita a partir de uma série de pesquisas e outros textos jornalísticos, segue as minhas principais fontes na hora de escrever:

  • https://redetransbrasil.org.br/
  • https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-11/transgeneros-e-nao-binarios-sao-2-dos-brasileiros-revela-pesquisa#:~:text=Transg%C3%AAneros%20e%20n%C3%A3o%20bin%C3%A1rios%20s%C3%A3o%202%25%20dos%20brasileiros%2C%20revela%20estudo%20%7C%20Ag%C3%AAncia%20Brasil.
  • https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/21099/13982
  • https://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/pessoas-trans-nas-universidades-federais-do-brasil/
  • https://observatorio3setor.org.br/projeto-social-ajuda-pessoas-trans-a-cursarem-o-ensino-superior/
  • https://almapreta.com.br/sessao/cotidiano/unicamp-e-a-1-estadual-de-sp-a-aprovar-cotas-para-pessoas-trans-travestis-e-nao-binarias/?gad_source=1&gad_campaignid=22546923003&gbraid=0AAAAAqda5pxzDKeNUDRk9tGRT56p3jzmV&gclid=Cj0KCQjw7cLOBhDmARIsAGsuA0nRp-snZo04d_ls-FwGDgz54sjHpd6JYQ2bOP-sh6O9-wlIP-pJOoMaAkaREALw_wcB
  • https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2018/junho/organizacao-mundial-da-saude-retira-a-transexualidade-da-lista-de-doencas-e-disturbios-mentais#:~:text=OMS%20retira%20transexualidade%20da%20lista,Direitos%20Humanos%20e%20da%20Cidadania&text=Requerimentos%20de%20Pens%C3%A3o%20Especial%20da,Situa%C3%A7%C3%A3o%20dos%20processos%20em%20an%C3%A1lise.
  • https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/censo-da-educacao-superior/inep-divulga-resultado-do-censo-superior-2024
  • https://www.gov.br/mec/pt-br/cne/pdf/normas-classificadas-por-assunto/nome-social/rcp001_18.pdf
  • https://livre.jor.br/uso-de-nome-social-no-enem-tem-aumentado-em-4-anos-1-240-trans-fizeram-a-prova/
  • https://www.cnnbrasil.com.br/educacao/mulher-trans-entra-em-universidade-federal-25-anos-apos-deixar-escola/
  • https://wp.ufpel.edu.br/nugen/2021/01/29/dia-da-visibilidade-trans-uma-linha-do-tempo-da-luta-e-dos-direitos-de-travestis-transexuais-e-transgeneros/
  • https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/em-seis-anos-quadruplica-o-total-de-estudantes-trans-na-rede-publica/
  • https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/brasil_sem_homofobia.pdf

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