O Rei de Amarelo representa o medo de se conhecer de verdade

Por: Alex Godoi

REVIEW COM SPOILERS

Disclaimer: Antes de entrar na review do livro queria dizer que só fui atrás de ler a história por conta da série Don’t Turn Left, um ARG de Minecraft que tem inteiro no YouTube :P

O Rei de Amarelo de Robert William Chambers (1865 – 1933) é uma coletânea de contos conectados que, a primeiro momento, falam do livro dentro do livro Se trata de uma peça sobre o reino de Carcosa e seu misterioso soberano, Hastur, o Rei de Amarelo, que marcado pelo simbolismo da cor amarela, detém todo o conhecimento do mundo, e através disso consegue conduzir seus leitores à loucura após lerem a peça que carrega seu título.

Todas as histórias são ambientadas em uma França muito artística e melancólica, ou em uma América (Estados Unidos) que ainda está passando por diversas mudanças, refletindo a própria vida de Chambers, que viveu em constante viagem por esses países até se estabelecer de vez nos Estados Unidos.

As histórias também são todas conectadas entre si, com personagens e fatos sendo apontados de forma recorrente, além, é claro, da peça do Rei de Amarelo que conecta todos à mesma época (ou pelo menos anos muito próximos uns dos outros). Os primeiros 5 contos do livro de Chambers são ótimos na verdade, não é à toa que inspirou H.P. Lovecraft a escrever seus próprios horrores.

Mais abaixo vou do que se trata esses 5 primeiros contos que compõem a primeira metade do livro, pois esses na minha visão são o que dão título ao livro de Chambers e realmente te dão a imersão caótica do que é Carcosa. Os últimos 5 contos do livro, no entanto me deixaram confusa e deixaram muuuuito difícil a experiência de terminar o livro.

As histórias que abordam diretamente O Rei de Amarelo são intrigantes, cada personagem que tem contato com livro descreve, a princípio os mesmos “sintomas”, como a inexplicável vontade de não largar o livro até tê-lo terminado, mas de certa forma, cada um recebe uma punição diferente por fazer isso.

O jeito que os detalhes são colocados entre um conto e outro também te fazem ler tudo com o dobro de atenção, caçando onde os personagens se conectam às loucuras uns dos outros, ainda mais quando a cor Amarela é mencionada.

Falando sobre a última metade do livro, a maioria deles se passam no novamente no Quartier Latin em Paris e não tem nada de sobrenatural, psicótico ou fantasioso como no início do livro. Neles acompanhamos diversos artistas diferentes em alguns contos de amor e corações partidos, todos sinceramente tão chatos, repetitivos e sentimentais que não sei se foi uma escolha da editora DarkSide de inclui-los no livro para fazer um melhor complemento das obras de Chambers ou se isso está no material oficial do Rei de Amarelo produzido pelo escritor, afinal, o próprio Quartien Latin é um livro escrito por Robert antes dos horrores de O Rei de Amarelo.

Dois personagens em particular que aparecem em 3 dos 5 contos finais são Elliot e Clifford, o qual o autor faz questão de ressaltar que se tratam de alunos de artes brilhantes, mas em nenhum momento nos é descrito uma obra que demonstre o brilhantismo dos dois pois o autor estava mais interessado em contar como eles são bêbados e mulherengos, vistos como boêmios demais para a época em que a história se passa.

Os outros contos são que não contém esses dois conseguem ser ainda mais insignificantes. O primeiro sobre um homem sem nome que descobre através de uma gata que um antigo amor havia falecido e o outro sobre Jack Trent que, após descobrir que sua esposa Sylvia tem um filho com um homem que é considerado seu inimigo, decide se alistar em uma guerra para não ter que encarar o problema.

Eu particularmente enxergo que esses contos estavam muito mais como uma crítica de Chambers aos espaços com os quais ele conviveu em Paris sendo um americano. Ou talvez ele só tenha se cansado das loucuras de Hastur e tenha temido enlouquecer por sua própria obra.

Os 5 contos iniciais de O Rei de Amarelo

O primeiro deles, “O Reparador de Reputações” conta a história de Hildred Castaigne, que é um bom exemplo de narrador não-confiável. O conto se “passa” em uma América não muito distópica, mais segregacionista e ditatorial do que nunca, fechada para qualquer tipo de estrangeiros para conservar o espiríto americano. Hildred, após cair com seu cavalo em uma corrida e ler a peça de Hastur, “descobre” que seu primo, o militar Louis Castaigne é herdeiro de um antigo trono descendendo diretamente do rei de amarelo, e que se tirar Louis do caminho pode assumir esse trono para si, assim como a noiva do primo, a jovem Constance por quem é secretamente apaixonado e cujo o ciúme que sente aumenta sua psicose. Desde o começo Hildred da indícios da existência da coroa e do reino de Carcosa descrito na peça, enquanto pouco a pouco o leitor percebe que talvez, nem a América militarizada descrita por ele seja de fato realidade, sendo justamente esse o desfecho do texto. Após uma tentativa fracassada de assinar Louis, Hildred ameaça a todos e é internado de forma permanente e morre no sanatório, acreditando que havia chegado tarde demais para conquistar o trono.

No segundo conto “A máscara” (meu favorito), acompanhamos quatro artistas do bairro de Quartier Latin, em Paris. O pintor Alec, o escultor Boris Yvain e sua esposa e musa Geneviève e Jack Scott. Na história, Boris descobre uma fórmula mágica, capaz de transformar objetos e seres vivos em esculturas de mármore e mostra isso para Alec e Jack, que o aconselham a se livrar da substância. Pequenos detalhes do conto indicam que Boris teria descobrido a fórmula após ler a peça do Rei de Amarelo à qual Alec e Geneviève também tem contato mais tarde, o que dá origem a trama principal. Em uma noite após Geneviève ler o conto, ela é acometida por uma doença, e em seu estado febril revela a Boris que teve uma paixão pelo pintor Alec antes dos dois se casarem. Transtornado pela revelação, Alec lê o Rei de Amarelo para entender porque Geneviève revelou o segredo dos dois e é acometido pela mesma doença. Enquanto Boris se retira para refletir a doença do amigo e da esposa e o segredo de ambos, Geneviève, ainda em seu estado febril se joga na substância criada por Boris e se torna uma escultura de mármore, quando Boris descobre não suporta pensar que matou sua musa e se também se mata, deixando sua casa e estúdio para Alec como herança. Quando o pintor se recupera da doença causada pelo livro, Jack conta a ele tudo o que aconteceu e os dois resolvem se afastar do Quatier Latin para não pensar mais em Boris e Geneviève. Anos se passam e Alec e recebe uma carta de Jack, o convocando de volta para a casa do escultor e da musa pois havia descobrido que a substância não era permamente, ao retornar, o pintor descobre que Geneviève ainda estaja viva, sendo aos poucos descongelada de seu estado de mármore.

O terceiro conto, mais curto que os outros dois é intitulado de “Na Travessa do Dragão”. Nele, o narrador sem nome é um homem que está sendo atormentado por vultos e visões após ler O Rei de Amarelo, e procura refúgio em uma missa na Igreja de São Barnabé, em Marselha. Durante o sermão do padre o narrador começa a prestar atenção no organista da igreja, que aparenta ter uma raiva peculiar do narrador. Ambos ficam em uma guerra silenciosa até que o organista se retira da Igreja e nosso narrador decide segui-lo, aos poucos, os pápeis vão se invertendo e o organista passa a caça-lo pela cidade. Nesse ponto o narrador percebe que havia dormido durante o sermão, só para descobrir que durante sua fuga, caiu no próprio reino de Carcosa, onde está fadado a enlouquecer aos poucos, tendo sua alma caçada pelo organista enquanto seu corpo é consumido pela visão do próprio Hastur em suas vestes amarelas.

No penultimo conto da primeira parte, “O Sigilo Amarelo” somos reapresentados ao pintor Jack Scott do conto de “A Máscara”, que parece ter seguido a vida tranquila muitos anos depois do incidente com Geneviève. Ele e sua modelo favorita, Tessie, estão tendo sonhos conectados onde um homem dirigindo uma carruagem funerária leva a alma de Jack embora. Graças ao sonho (ou pesadelo) os dois se aproximam cada vez mais e se apaixonam, nesse meio tempo, o livro de O Rei de Amarelo aparece como que por vontade própria na biblioteca particular de Scott, onde Tessie o encontra e o lê ficando catatônica a assombrada. Para tentar ajuda-la, Scott lê a peça e os dois passam dias se recuperando do choque. Numa tentativa de consolar o pintor, Tessie o presenteia com um broche, sem perceber que este carregava o sigilo do Rei Hastur, condenando a alma do pintor e fazendo o sonho compartilhado dos dois se tornarem realidade.

Por fim, em “Demoiselle d’Ys” somos apresentados à Phillip, que após se perder nas Charnecas da Bretanha conhece a condessa Jeanne d’Ys que lidera um grupo de falconeiros para conseguir comida para comida para as pessoas que à servem. A princípio a história não faz nenhuma mensão direta ao Rei ou qualquer elemento paranormal, embora haja a descrição de luzes e plantas Amarelas durante a caminhada de Phillip e da condessa d’Ys, que o conduz a sua casa e diz que é impossível que tenha vindo da Bretanha até as regiões que se encontram. Quando chegam Phillip percebe que as roupas, móveis, construções e costumes remetem a epócas distantes, mas isso não o incomoda. De um dia para outro Jeanne e Phillip se apaixonam profundamente o que faz com que ele seja picado por uma cobra nos jardins para protege-la do ataque. Quando Phillip acorda, se encontra deitado na lapide de Jeanne, que teria morrido de coração partido após a morte de um forasteiro desconhecido á pelo menos 300 anos atrás, deixando a dúvida se o aventureiro teria de alguma forma viajado ao passado

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